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Eu prefiro a madrugada.

Eu prefiro a madrugada. O silêncio. O distanciamento. Eu prefiro a madrugada, quando a maior parte não está aqui. Quando o tempo parece congelar. Quando só eu existo. Eu prefiro a madrugada, quando os pensamentos soam mais alto. Eu prefiro a madrugada, quando eu brilho no escuro. Eu prefiro a madrugada, onde todos os gatos são pardos. Onde eu posso me ouvir melhor. Eu prefiro a madrugada, porque não se precisa mentir nem inventar. Prefiro a madrugada porque é mais sincera. Prefiro as madrugadas insones, onde se sonha mais alto. Prefiro as madrugadas sóbrias, quando se vê mais ao longe. Eu prefiro a madrugada. Que é mais lenta. Que não nos atropela. Eu prefiro as madrugadas e seus ritmos sem pressa. O ritmo do agora. Prefiro lembrar o que me disse numa madrugada. Prefiro as madrugadas solitárias. E eu prefiro a madrugada com você aqui.

Ao meu amor.

Em respeito ao meu amor, jamais deixarei de amá-lo - ou ao menos por hora. Porque meu amor não é descartável. Não é algo que mude ou se jogue fora, simplesmente junto com o objeto que se vai. Meu amor é muita coisa. É força, é profundidade, é aceleração. Ele se dá e preenche. E não é assim, porque o objeto se afasta, que, como poeira, vai ao vento deixar de ser amor. Ou espalhar-se. Ou mesmo polvilhar quintal alheio. Não, devo muito ao meu amor para achar que posso desvencilhar-me dele assim, súbito, de uma vez por todas. Ele é maior do que eu. Se se ama algo mesmo, não é porque este algo não está ao alcance que qualquer outra coisa pode substituí-lo... Lutar contra isso me parece inútil. E se outra coisa pudesse simplesmente entrar no lugar, então talvez não fosse amor. Pelo menos não o meu amor. Esse que é tamanho. A maioria já deve ter ouvido falar que o poetinha pensava que nada melhor para esquecer um grande amor do que um outro, novo grande amor. Talvez não seja bem isso. Talve...

Ode à Vida.

Morte pra que te quero! E quero-te, a grande perda! O fim de tudo o que posso conceber como tudo. De todas as mortes nesta vida, és tu a única certa. Morro, logo sou. Há quem saiba o que tu guardas? O que tuas cortinas desvelam? Espero-te calma e serena sem pensar em ti, encontrando-te a cada esquina. Acompanha-me, pois que morro a cada dia. E a Vida, tua antagonista será? Ou serás tu apenas o resultado final daquilo que não sabemos a que viemos? Quero-te para mim e para todos aqueles que são meus, posto que o infinito é inominável angústia. Quero-te na hora em que me quiseres, nem um segundo a mais ou a menos. Quero-te farta, potente, absoluta, e não tua face negada, vestida de preconceitos. Se, Morte, tu és o desfecho da Vida, quero-te como esta, que me preenche por todos os poros na certeza de que existo. Existirei tão mais quando chegardes, e existirei até o último momento de existir, porque és tu que me dás a vida que me levas. E ma dás plena, e é por isto que vivo. Vivo sabendo ...

Soneteando meio torto.

Singrando em minha pele Teu corpo vai, sem hora E o tempo de outrora Não faz que se revele. Se não mais vivo aquele Penar que de outra vez Corroía minha tez Teu olhar que assim sele Compromisso de não ter às vistas de quem olha Compromisso algum de ser Pois que noite que o valha Se vem deste teu prazer Vale mil tu'a migalha.

Aforismos

Tranformação. Já mudei tanto na vida, e ainda assim, existe um eixo central que reconhece infinitamente ser eu mesma. Feminino. Eu não seria outra coisa senão o feminino. Idiossincrasias. Não há nada mais sedutor no outro do que suas idiossincrasias. Escolha. Ser infinitamente quem se é tem me trazido muitos problemas. Descoberta. Hoje eu descobri que sou uma pessoa vazia e superficial. Autoimagem . Na maioria das vezes, o que vemos de nós é através daquilo que enxergamos no olhar dos outros. Existir . As coisas são exatamente aquilo que são. Nem mais, nem menos. Alma . Minha alma é um esplendor que carrego sobre os ombros; é tão mais exuberante quanto mais pesado a cada carnaval. Criatividade . Minha produção só é fértil em tempos de tempestade existencial. A calmaria da felicidade é improdutiva... Prisão. Hoje, tive claustrofobia ao ar livre. Efeito. É tudo uma questão de droga e dose. Sustentação. Ver as coisas através das nossas lentes distorcidas é muito ...

As good as it gets.

Ele está fazendo o melhor que pode. Você está fazendo o melhor que pode. Eu estou fazendo o melhor que posso. Sempre estamos. Frente às nossas neuroses. Acreditar que o ser humano sempre faz o melhor de si. Não o melhor que pode alcançar. É o melhor que pode oferecer naquele momento. Esse é o seu melhor. Seu melhor não é suficiente pra mim. Mas quem sou eu pra julgá-lo? É o melhor que pode fazer. E que direito me outorgo de dizer que seu melhor não é bom? Qual o critério? De onde parte a medida? Serei eu a medida de todas as coisas? Meu melhor não dá conta do que é necessário para ser avalizado por você. Mas o ponto de arquimedes sou eu mesmo. É o mais do que eu sou. Relatividade cultural distorcida aplicada ao micorcosmo que somos. E se eu perco o controle do que faço, ainda assim, é o que mais posso dar de mim no momento. Porque nem sempre tenho o controle. Porque perder o controle, neste momento, é tudo o que consigo fazer de mim. Meu erro é o melhor que posso dar agora. ...

Não é você, sou eu.

Óbvio. Gozado constatar que geralmente creditam conotação de inverdade a esta frase. Como desculpa esfarrapada. Nunca é você. E sempre serei eu. O outro não tem responsabilidade por aquilo que sentimos, menos ainda sobre como sentimos. Influência, talvez. Responsabilidade, nunca. Se não suporto seu sorriso amarelo, sou eu. Se não aceito seus hábitos noturnos, sou eu. Se não gosto da forma como fala com sua mãe, sou eu. Se não acho a menor graça nas suas piadas, tudo sou eu. Eu sou aquela que não sinto o que você gostaria que eu sentisse por você. O que eu sinto, vem de mim, do que eu vejo em você, e não de uma relação intrínseca ao que você relamente é. Porque eu nunca saberei o que você realmente é, a coisa em si. Só posso saber do que sinto quando vejo o que vejo naquilo que percedo em você, a coisa para mim. Se eu não quero estar com você, desculpe, não é você, sou eu. Não, isso não é uma grande e gorda mentira. É exatamente dessa forma, sou eu quem não te suporta. E isso não é cul...