Domitila K.

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Não sou isto nem aquilo. Nem uma coisa nem outra. Nenhum lugar é meu lugar. Ninguém é meu irmão. Ímpar. Esquerda. Noturna. Soturna. Avessa. E ainda assim, todo.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Shiva, Vishnu e Brahma, Nietzsche, Heidegger e Sartre.

A existência é perfeita. Nem mais nem menos. Não se deve questionar o que se lhe acontece, porque é a perfeição. A existência é perfeita e você está exatamente onde deveria estar nesse momento. O que lhe acontece é exatamente da forma como deveria. Todos os milhares de seres que atravessam seu caminho ao longo do dia, deveriam estar precisamente ali naquele momento, não antes, não depois, não em outro caminho, mas no seu, naquele instante único.
A unicidade é a precisão da existência. Porque só existe isso agora. E o que existe é minuciosamente programado para vir a ser, nesse único instante do existir. O existir não é linear. É apenas um ponto,o ponto do instante. Não existe antes nem depois, apenas isso, o instante que há, é onde eu existo. Eu não fui nem serei. Tampouco sou. Eu estou sendo. O momento do devir. E eu devenho a cada instante que é um só.
O que há é apenas o agora. O que foi e o que será não têm consistência. É vago, etéreo, onírico. O único real é o do momento presente. Se o que é não corresponde ao que você gostaria que fosse, não é a existência que erra, mas sim sua fantasia que não se adequa.
Porque temos a pachorra de criar uma linearidade que sequencia o existir para atender à necessidade de nossa consciência restrita de criar o mundo à sua imagem e semelhança.
Do contrário, é você que é parte do todo. E sua existência serve exatamente ao propósito da perfeição.
Viva o que quer que seja agora.
Aceite. E seja parte do eterno movimento do devir.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

As canções que você dançou pra mim, ou Sobre a melhor cia de dança contemporânea do Brasil

Quando se assiste a um espetáculo idealizado e coreografado por Alex Neoral algumas peculiaridades são dignas de nota. Como com todo autor/criador, sua criatura tem características próprias de sua assinatura. Nos paridos de Alex, começamos notando que possui marcas características para quase todos os segmentos do corpo, cabeça, ombros, braços e pernas, além de um gingado propriamente seu.. Parelho a isso, Alex brinca com um jogo aritmético de pares, onde a fluidez é dada pela construção de uma mecânica do diálogo dos corpos, ao mesmo tempo em que estes corpos formam entre si uma continuidade tácita. Movimentos estanques ritmados e a brincadeira entre tempo e contra-tempo completam a base destes diálogos, e surgem disso múltiplas cenas simultâneas, num fluxo preciso que converge invariavelmente para uma fusão final de todos os elementos num todo orgânico.
O tempero final do sabor da obra de Alex é a expressividade manifestada na execução da obra, solicitando de seus bailarinos mais que seus corpos; seus rostos, seus dentes, sua voz e suas paixões. Alex conhece tão bem os instrumentos que se entregam a ele que cria personagens inequívocos para cada um, regendo uma orquestração perfeitamente afinada.
Obviamente cercado daquilo que acompanha o nível de sua criação, figurino, luz, trilha sonora, somam-se à ambrosia que inebria toda a audiência do primeiro ao último minuto.
Ao final, só nos resta uma palavra:
BRAVO!


"As canções que você dançou pra mim" está em cartaz no Espaço Sesc, em Copacabana, de 24/11 a 18/12 qui à sáb 21h dom 19h30.

Focus Cia de Dança é:
Alex Neoral
Carol Pires
Clarice Silva
Marcio Jahú
Marisa Travassos
Mônica Burity
Rodrigo Werneck
Thiago Sancho

sábado, 12 de novembro de 2011

Para que eu procure entender.

Sexta-feira, uma hora da manhã. Um dia sem trabalho. Sem compromissos formais. Um dia para dormir até quatro da tarde. O primeiro de um longo feriado emendado. Em casa. A despeito dos convites e do rock'n roll acontecendo lá fora. Pergunta-se, porquê em casa? É a idade. Não. É o desinteresse pelas situações mais que conhecidas. Estar na festa. A música. Todas aquelas pessoas tentando parecer felizes. Todas aquelas pessoas tentando parecer mais interessantes que as outras. Todas aquelas pessoas tentando parecer. E a certeza de que estar lá significa necessariamente vestir a surrada carapuça das situações como essa. Tentar parecer feliz e interessante. Relembrar todas as teorias dos livros de auto-ajuda que dizem sobre dar a chance ao destino de colocar as pessoas certas no seu caminho, e que por isso deve-se estar, aparecer, participar. Sorrir. Dançar. Essas músicas incríveis.
Em casa sexta-feira à noite, começo de feriadão. Pelo grandissíssimo desinteresse no mesmo novo de sempre que se apresenta como possibilidade, se à festa fosse. Pelo cansaço de ter expectativas. O cansaço de ter expectativas frustradas. A opção por, ao invés, afundar-se em filosofias e reflexões sobre a vida e a morte e o trabalho de onde se sai, mas que não sai de si. Será a idade? Não. A transformação do desejo sobre o que viver, talvez. O desvio dos interesses, reencaminhamento de libido. Quem vem com a idade. Ou com a idade vem o resultado das experiências anteriores, que já sabe-se como são e que não espera que nada seja diferente do que já foi. Mais do mesmo. Talvez querer que isso que possa surgir como diferente, o faça de outra forma, que não essa conhecida, que não a expectativa que já se sabe frustrada.
Ou mais ainda: talvez esperar por algo especificamente diferente que sabe-se, não estará lá. Nem tampouco em casa, sexta-feira à noite. Onde será, então? Percebe, aos poucos, a esperança da possibilidade deixando de haver em si. E perde o interesse de abrir possibilidades vazias. Que até poderiam não sê-lo desta vez, mas que não se acredita tentar.
Parece pessimismo. Parece desânimo. Mas é apenas desinteresse generalizado significado em interesse específico. É apenas querer ir ao que interessa. O resto, é apenas o resto.
Até a página dois.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Eu prefiro a madrugada.

Eu prefiro a madrugada. O silêncio. O distanciamento.
Eu prefiro a madrugada, quando a maior parte não está aqui. Quando o tempo parece congelar. Quando só eu existo.
Eu prefiro a madrugada, quando os pensamentos soam mais alto. Eu prefiro a madrugada, quando eu brilho no escuro.
Eu prefiro a madrugada, onde todos os gatos são pardos. Onde eu posso me ouvir melhor.
Eu prefiro a madrugada, porque não se precisa mentir nem inventar. Prefiro a madrugada porque é mais sincera. Prefiro as madrugadas insones, onde se sonha mais alto. Prefiro as madrugadas sóbrias, quando se vê mais ao longe.
Eu prefiro a madrugada. Que é mais lenta. Que não nos atropela. Eu prefiro as madrugadas e seus ritmos sem pressa. O ritmo do agora.
Prefiro lembrar o que me disse numa madrugada.
Prefiro as madrugadas solitárias.
E eu prefiro a madrugada com você aqui.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Ao meu amor.

Em respeito ao meu amor, jamais deixarei de amá-lo - ou ao menos por hora. Porque meu amor não é descartável. Não é algo que mude ou se jogue fora, simplesmente junto com o objeto que se vai. Meu amor é muita coisa. É força, é profundidade, é aceleração. Ele se dá e preenche. E não é assim, porque o objeto se afasta, que, como poeira, vai ao vento deixar de ser amor. Ou espalhar-se. Ou mesmo polvilhar quintal alheio.
Não, devo muito ao meu amor para achar que posso desvencilhar-me dele assim, súbito, de uma vez por todas. Ele é maior do que eu. Se se ama algo mesmo, não é porque este algo não está ao alcance que qualquer outra coisa pode substituí-lo... Lutar contra isso me parece inútil. E se outra coisa pudesse simplesmente entrar no lugar, então talvez não fosse amor. Pelo menos não o meu amor. Esse que é tamanho.
A maioria já deve ter ouvido falar que o poetinha pensava que nada melhor para esquecer um grande amor do que um outro, novo grande amor. Talvez não seja bem isso. Talvez seja quase isso. Talvez seja que um belo dia, você consegue que seu amor ame pra outro lado, mas isso não é escolha sua. O amor é das poucas muitas coisas que o ser humano, apesar de todos os esforços empreendidos em sua história, nunca conseguiu mensurar, decifrar, compreender, descrever, analisar, personificar, compactar, envasar, dissecar. Coitado de quem patologiza o amor. Coitada de mim, que já o fiz! Mas meu amor é tão maior, que não se vinga! Ao invés, não me abandona. Poderia ele deixar-me, eu eu pensaria que nem existiu. E, ora, que tola teria sido, se nada disso tivesse sido amor.
Mas, não. Cá está ele, ao meu lado, todas as horas. Meu amor está aí, e amo ao longe. Não amo porque algo é. Amo simplesmente por amar, porque o amor não tem critérios. O amor é um fim em si mesmo.

Antropofagia

Antropofagia
Tarsila do Amaral