Pular para o conteúdo principal

Postagens

É necessário dividir porque não se cabe em si mesma. Cena 1

Toda casa está apagada; há uma panela besuntada de azeite sobre o fogo alto da primeira boca direita do fogão. O filme está pausado. Toda a casa está apagada. A luz da cozinha lança penumbra sobre a sala e o banheiro. Ela já não cabe em si mesma e não sabe ao certo o que fazer com isso. Sai dois passos além da porta da cozinha, e, segurando o saco com seus últimos milhos, gira noventa graus para se deparar com a sala. Toda a casa está apagada. O que é isso que ela vê? A panela superaquecida fumega sobre a primeira boca direita do fogão, e ela não entende o que vê. Não não entende de um estado confusional, mas de uma certa perplexidade com a realidade. É isso, ela está perplexa com o que parece ser real. Na sala penumbrada os tons de vermelho sobressaem e ela olha vagarosamente da direita para a esquerda, como se quisesse ver, enquanto o filme continua em pausa e a panela fumega prevendo um incêndio que não acontecerá. Ela retoma o curso do fazer. Os milhos caem fazendo estardalhaço sob...

Todo mar é mar nunca antes navegado.

Me recuso terminantemente a ver o mundo como os outros o vêem. Mas, na verdade, não sou eu quem se recusa. Eu não seria tão tola. Há algo em mim que não admite que o meu mundo seja o mundo de um outro. Há algo em mim que repudia a naturalidade com que as coisas são incorporadas, há algo em mim que rejeita o óbvio. Esse, é o daimon da perplexidade. Cada som, cada forma, cada cheiro, cada toque são novos a cada momento. Cada dor, cada frio, cada impressão, acontece apenas desta única vez, nem antes, nem depois, mas agora, no momento em que acontece, e eu os vivo, e são novos, novidades que me deixam perplexa. Todo mar é mar nunca antes navegado. Tudo é novo, e, assim o sendo, rejeito fechá-lo na explicação daquilo que foi antes, daquilo que foi outro. O que eu vivo, deve ser conhecido a partir da sua verdade única, deve ser explorado a partir do zero, deve ser escrutinado, destrinchado e nomeado a partir de si mesmo. Você. Você é uma grande novidade para mim. A cada dia em que te encontr...

Síntese aproximativa da minha realidade

"Não saberemos jamais se o outro, com o qual não podemos, apesar de tudo, confundir-nos, opera, a partir dos elementos de sua existência social, uma síntese que coincide exatamente com a que elaboramos. Mas não é necessário ir tão longe, é preciso somente - e para tanto, o sentimento interno basta - que a síntese, mesmo aproximativa, decorra da experiência humana." Lévi-Strauss, C. Antropologia Estrutural Dois. Tempo Brasileiro: RJ, 1993. Lévi-Strauss falava aí de uma síntese entre a dimensão objetiva da observação empírica e a dimensão subjetiva da vivência do observador. Sua aposta - fundamentada por ele em Mauss - é que, uma vez que somos homens observando a vivência de homens, nossa humanidade basta para confiar na aproximação da análise do etnólogo com a idéia que o próprio nativo faz de sua realidade, criando uma verdade a partir da interseção de duas subjetividades. O modo como coloquei aqui pode fazer parecer simplória esta afirmação, mas é que me furto de discorrer l...

Sobre a morte.vida.morte.vida.morte.vida.morte.

"Vivo de mim mesmo , de minha própria crença , apesar da afirmação de que vivo não ser , talvez , senão um mero preconceito. Basta que eu fale com um homem 'cultivado' qualquer , que tenha vindo veranear na Alta Engandina , para convencer-me de que NÃO vivo. Assim , pois há um dever imperioso contra o qual se revolta até no íntimo o hábito , e , mais ainda , o orgulho dos meus instintos. Consiste este dever em proclamar: - Ouvi-me! EU SOU ALGUÉM E , SOBRETUDO , NÃO ME CONFUNDAIS COM QUALQUER OUTRO!" Friederich Nietzsche. Quantas vezes fala-se em morte na vida? Não me refiro a falar sobre os nove tiros que fulano levou à queima-roupa quando chegava na favela do trabalho, nem das pessoas arrastadas, defenestradas, incendiadas, nem demais atrocidades do Jornal Nacional. Me refiro à morte. Falar sobre morte; vida-morte. Como diz a música "the moment you're born you start dieing, so you might as weel have a good time". Morte não é o oposto de vida. Não são...

Filosofia dos sentidos

"Há metafísica bastante em não se pensar em nada" Filosofia é a teorização abstrata da prática concreta. O pensar nos une e nos separa. O que é o ato de pensar para a natureza humana? E o que é o não pensar? É possível o não pensar? Pensar cartesiano x pensar. Sentir e pensar. Categorias kantianas. Pensamento. Pensar é diferente de sentir? É possível sentir com o pensamento? Qual é a diferença entre uma reação com pensamento para uma reação sem pensamento? Ou melhor, "vou dar uma porrada nesse fdp!!!" não é um pensamento? Confunde-se talvez pensamento simples com pensamento crítico. Pensar é um atributo primário da mente humana? cogito ergo sum.

Arte e confronto com o inconsciente

Ao assistir a uma série de apresentações de dança contemporânea dia desses, algo me chamou a atenção em particular. Peculiaridades nas coreografias denunciavam uma certa identidade entre os movimentos, que pareciam ser os hits da contemporâneidade. Claro que, culturalmente isso pode ser visto sob o prisma dos conceitos antropólógicos de contaminação e difusão, mas eu também gosto muito de pensar na influência do zeitgeist - como vocês bem devem ter percebido, pois já devo ter usado este termo aqui pelo menos umas três vezes. Somo filhos do nosso tempo e o idioma simbólico que utilizamos para traduzir as marés que nos vêm (antes de 2012, mantenho o acento, que adoro) do inconsciente é parcialmente culturalmente definido. De qualquer forma, uma das apresentações em específico me fez chegar à seguinte construção: diálogo com o insconsciente sem mediação simbólica é esquizofrenia. Parece que falei o óbvio, o que não deixa de ser. Mas é um óbvio necessário, visto que não parecia tão óbvio p...

Radiohead - Creep

Uma poesia que nos dá uma ótima dimensão do discurso da ansiedade sobre identidade e estrangeirismo. Fala sobre como pertença, estranhamento e identidade estão inscritos nas relações, que é onde nos constituímos humanos. When you were here before, Quando você esteve aqui antes Couldn't look you in the eye Não pude te olhar nos olhos You're just like an angel, Você é como um anjo, Your skin makes me cry Sua pele me faz chorar You float like a feather Você flutua como uma penugem In a beautiful world Num mundo belo I wish I was special Eu queria ser especial You're so very special Você é tão especial But I'm a creep, Mas eu sou uma aberração I'm a weirdo Sou um esquisito What the hell am I doin' here? O que diabos estou fazendo aqui? I don't belong here Não pertenço a este lugar I don't care if it hurts, Não me importa se dói, I wanna have control Quero ter controle I want a perfect body Quero um corpo perfeito I want a perfect soul Quero uma alma perfeita...