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Não é você, sou eu.

Óbvio. Gozado constatar que geralmente creditam conotação de inverdade a esta frase. Como desculpa esfarrapada. Nunca é você. E sempre serei eu. O outro não tem responsabilidade por aquilo que sentimos, menos ainda sobre como sentimos. Influência, talvez. Responsabilidade, nunca. Se não suporto seu sorriso amarelo, sou eu. Se não aceito seus hábitos noturnos, sou eu. Se não gosto da forma como fala com sua mãe, sou eu. Se não acho a menor graça nas suas piadas, tudo sou eu. Eu sou aquela que não sinto o que você gostaria que eu sentisse por você. O que eu sinto, vem de mim, do que eu vejo em você, e não de uma relação intrínseca ao que você relamente é. Porque eu nunca saberei o que você realmente é, a coisa em si. Só posso saber do que sinto quando vejo o que vejo naquilo que percedo em você, a coisa para mim. Se eu não quero estar com você, desculpe, não é você, sou eu. Não, isso não é uma grande e gorda mentira. É exatamente dessa forma, sou eu quem não te suporta. E isso não é cul...

Mil desculpas.

- Desculpa, mas eu simplesmente não consigo abrir mão da minha vida para viver a vida do outro. Sinto muito. Mesmo. Muita gente consegue. Mulheres, na maioria das vezes. Vejo isso diariamente. Gente que se entrega à vida do outro. Isso lhes é exigido, como uma prerrogativa. Mas não são todas, todas que ainda vivem nesse universo provinciano, e eu não vou viver assim. Me perdoe, mas não pra mim. O problema é que muitas vezes o preço é a solidão. Você vai me desculpar, mas isso que você me demanda é demais. Não posso dar-me a você desta forma. E se todos vocês forem ser iguais assim, o preço será não dar a nenhum de vocês nada. Nem um pouco. Minha maior prova de amor é dar-me completamente a você. E sua maior prova de amor é devolver-me a mim, para que juntos, possamos ser dois. Não me leve a mal. É apenas que eu não sou dessas. Dessas que se deixam de lado por você. Dessas que vivem a sua vida, e depois, quando você se vai, nada resta. Eu sei que você é desses. Desses que chegam com...

Não feliz.

Tudo bem? Não. Quantos esperam ouvir esta resposta quando cumprimentam alguém? Por que esta é uma resposta possível. Não, não estou bem. Não, as coisas não vão bem, e não, não está tudo bem comigo. Mas não é o que esperam, pois "tudo bem?" não é uma pergunta sincera. É apenas uma expressão idiomática usada para abrir comunicações informais. Quem pergunta não quer realmente saber se vc está bem ou se sofre. Quer apenas introduzir um assunto de interesse de ambos - ou não. E mais: quem pergunta, por mais que se importe, não quer mesmo ouvir que nada vai bem como resposta. É proibido não ser feliz. Se eu pergunto se está tudo bem, a resposta deve ser "sim, tudo vai bem comigo! e com você aí? Vai bem também? Tão bem como vai comigo? Tão bem ou melhor ainda?". Ora, deixem-me em paz! Deixem a tristeza em paz! Não, as pessoas não estão bem sempre e sim, tem horas em que tudo está uma grande merda. Mas por inúmeros motivos, ninguém sabe lidar com isso. Temos todos que se...

Algumas coisas.

Muitas vezes na vida, mais do que gostaríamos, algumas coisas simplesmente não dão certo. O bolo sola. O carro enguiça. A goteira inunda. O passo falseia. A luz falta. O hd apaga. O pé tropeça. O copo entorna. A carne queima. O remédio não faz efeito. O vôo atrasa. A cerveja acaba. O paraquedas não abre. O sinal não fecha. O ônibus não chega. A calça não abotoa. O vestido não cabe. O relógio pára. O outro não vem. O chefe não libera. A amiga não vai. A internet não funciona. O trem não te espera. O convidado não aparece. A doença não se cura. A pessoa não liga. O empregador não te contrata. A comida não mata a fome. A água não escorre. A casa desabriga. A TV queima. O ventilador não refresca. O ovo estraga. A tentativa falha. O sapato aperta. A vista não enxerga. O coração enfarta. O vidro quebra. A porta não tranca. O outro não atende. O pano rasga. O teto roda. O fígado incha. A maquiagem borra. O dinheiro some. A conta chega. O dono cobra. O cachorro não late. O barco não atraca. A ...

Assim me tornei meu pior pesadelo.

Você entrou na minha vida. Bem por ali, vê? Fez. Aconteceu. Gato. Sapato. E eu ia te seguindo. Deixei disso, daquilo. Eu era tudo o que você não queria! Assim, assado, te ensinando o que você não queria aprender, aprimorando o que você não queria que eu fosse. Tudo o que você nunca imaginou! E você era tudo o que eu não precisava. Você via nas outras o que eu não era, e eu via em você o que achava que poderia vir a ser. Eu mudava e você se adequava. Eu aceitava e você disfarçava. E foi assim que comecei a ver. Tudo o que eu não era. E aquilo que eu não conseguia. E o que nunca poderia ser. Aos poucos, deixei de ver o que eu poderia fazer de você e comecei a perceber o que nunca seria de mim. Podia senti-la emergindo sob a epiderme. Ela, eu mesma que não era assim. Ela tinha outros olhos, que viam outras coisas de outras formas. E ao olhar pra você, via tudo o que eu não queria, e só isso. Eram os olhos dela vendo o que não podia ser pior, me cegando para todo outro possível você. E ao...

Retorno.

Dêem-me um motivo para me arrumar. Quero usar preto, com saltos altos, maquiar em torno dos olhos e tingir o cabelo de vermelho. Há muito que não me arrumo e tenho andado muito clara. Tão burguesa, calça jeans e rímel incolor. Dêem-me motivo para me vestir. Destacar os ombros, ruborizar as maçãs do rosto e ter os lábios carmim. Convidem-me para todas as festas de gala e me esqueçam pros churrascos de domingo. Guardarei todas as havaianas no fundo do baú. Quero que meus passos ecoem quando circular pelo salão acompanhada de um copo de destilado. Não me ofereçam fermentados frescos. Chegarei de táxi e não a pé. Entrarei sozinha, e não acompanhada. Mas estejam lá. Dêem-me motivo para me arrumar, e acreditar que sou aquilo que pareço. Pintarei as unhas de vermelho. Trarei comigo nada mais que um maço de cigarros. Dançarei com os quadris e os cabelos. Ao fim da noite, terei arranhado o verniz dos sapatos e dormirei sem retirar a maquiagem. O vestido ficará com cheiro de madrugada, e não ver...

Incomudância.

Há uma imagem que criei e uso muito em meu trabalho quando quero me referir à relação da mudança com o incômodo. Costumo dizer que não há mudança sem incômodo, e eis a imagem: só se levanta de um assento e senta-se em outro se está incomodado com o lugar onde se senta. Se me sinto confortável, aquecido, bem posicionado, num lugar agradável, não me mudo. Pode-se objetar que algumas mudanças nos são impostas, o que é verdade. Mas replico que ainda assim, o incômodo é, mesmo na situação de uma mudança que se impôs, o motor desta, pois que houve o desagrado da circunstância que nos fez mudar. Exemplificando com a imagem anterior, poderia até estar muito confortável em meu assento, até que alguém venha e o reivindique para si, fazendo-me levantar. Uma mudança imposta, sim, mas gerada pelo incômodo da situação de ter de se haver com a disputa pelo local onde se está sentado. Incomodo, logo mudo. Pois bem, tendo atestado o incômodo como motor de mudança da fo...