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Peripatética.

(É tudo tão hipotético que nem mesmo sei se aconteceu.) Sabe aquelas palavras que você não sabe o que significam, mas cria um significado próprio para elas? Pois assim é comigo e com a peripatética. Peri, é prefixo de "ao redor", na periferia, na borda, excluso do centro. Patética é aquilo que já sabemos: é patético. Pois então, peripatética(o) seria aquilo - na minha definição, claro - que beira o patético, de tão ridículo. Algumas coisas na vida são assim: nos fazem sentir peripatéticas. Quando falamos e não somos ouvidas, quando tentamos dizer, e não somos entendidas, quando expomos a verdade e não somos consideradas. Podem me perguntar: "porque você está usando o feminino plural?" E se a resposta não for óbvia aos olhos de quem lê, já respondo, porque sou mulher, e porque garanto que não há amiga minha que não há de concordar com o que digo agora. Não, não meu sobrenome não é Pinkola Estés, nem corro com lobos, apesar de gostar muito desses bichinhos. Não est...

Oração de São Francisco.

"Senhor, fazei com que eu procure mais consolar que ser consolado, compreender, que ser compreendido, amar que ser amado! Pois é dando que se.." Paremos por aí. Há várias considerações que se fazer acerca desta oração. Pra começo de conversa: um inconsolado consolar alguém? Como? Cheio de revolta no coração? Não vejo jeito de que um inconforme, incontinente, inquieto possa transmitir alento algum a quem precisar. Perdeu-se tudo, não há mais saída, sente-se no fundo do poço, e o camarada ao lado, sem ter sido consolado, nunca saberia dizer nada parecido com "para tudo há solução." Porque ele não sabe disso, nunca o disseram isso. Na verdade, quando ele mesmo esteve no fundo do poço, ninguém cantou para si: "levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima!" Já compreender mais que ser compreendido... bom, é o exercício da profissão. Noventa por cento - ou mais - do que dizemos aos pacientes, só vai ser compreendido daqui há meses... anos!, se é que algum di...

Como escolher seu analista/psicólogo.

"Eu apenas queria um relacionamento honesto, maduro e com o mínimo de neurose possível. É pedir demais?" Resposta do psicólogo.... Lacaniano : "Desista. Você nunca corresponderá totalmente ao desejo do outro." Freudiano : "O que você que é casar com o seu pai. Estou certo?" Junguiano : "A coniunctio pelo hierogamos é uma imagem arquetípica da qual esse seu desejo é uma expressão mais que natural. É atávico!" Existencial-humanista : "E o que isso significa pra você exatamente agora, nesse momento?" Reichiano : "Eu pude notar exatamente isso, pela maneira como você cruza os dedos das mãos enquanto segura seu joelho esquerdo com elas." Gestalterapeuta : "Seja esta relação. Coloque-a em primeiro plano agora. Como você se sente?" Winnicotiano : "A relação suficientemente boa é aquela que te frustra quando deve." Transpessoal : "Este problema está para além de você ou do outro." Esqu...

Tudo o que tenho por um pouco de paz de espírito, John!

Eu queria apenas ser, sem sabê-lo. Sem saber o como, quando e o porque de ser como quando e porque. Ser sem ciência, no máximo, uma leve intuição de por onde ir. Eu queria dizer, sem pensá-lo. Sem saber o porque do que digo nem adivinhar o porque da resposta que recebo. A inconsciência da ignorância do substrato de tudo. A consciência de si não é a ciência do subjacente. Posso saber de mim mesma, sem entender-me, nem a ti. Sei que sou, e basta. Não me interessa o que move meus passos, interessa que ando. Queria andar sem me notar, e, caso batesse numa parede, a culpa seria dela por estar ali, e não minha. O que sei de mim, é minha responsabilidade. Gostaria de lavar as minhas mãos. E que o resultado das coisas fosse apenas uma prerrogativa do suprapessoal, sem vínculo algum com minhas escolhas. E que as palavras fluíssem de meus dedos incessantemente. Penso, logo sou e sofro. Sofro a reflexão de mim mesma sobre o que sou. Se flutuasse na plenitude paradisíaca do não saber, o mundo ...

Noite de sábado.

Regina acordou com o despertador do relógio tocando, muito suavemente, bem baixinho. Na verdade já havia acordado quarenta minutos antes, Alberto, que dormia ao seu lado no tapete da sala, falava animadamente ao telefone. Ele voltara a dormir. Ela mais ou menos, e agora acordava de verdade, porque estava na hora. Depois de passarem o sábado inteiro juntos, bebendo e comendo e falando, de dormirem sob o mesmo teto, teriam ainda um domingo muito agitado. Regina já via ante seus olhos as porções de pastel e as garrafas de cerveja que teriam, logo logo, por café da manhã. Espreguiçou-se com um sorriso, cheia de pelos do tapete no vestido, virou-se na direção do amigo. Alberto estava sentado de costas para ela, no chão com as pernas cruzadas, imóvel. "Bom dia!", ela disse feliz. Ele não a respondeu. Chamou-o, com a intimidade dos amigos, de mal educado e sentou-se, chegando perto de onde estava. Alberto, imóvel, tinha a expressão atordoada, os lábios brancos e os olhos vidrados. ...

No strings attached.

Tinha chegado em casa bêbada. Uma vaga lembrança que pedira comida no boteco da esquina, logo confirmada pelo interfone. Era mais uma noite em vão. Mais um sono sem sonhos que se lembrasse e que pudessem lhe dar uma dica. Se fiava muito no que tinham a dizer, os sonhos. Dormiu no tapete da sala. Quem nunca teve essa urgência de dormir tão desenfreada de não conseguir chegar na cama? Morava sozinha a tempo suficiente para parecer desde sempre. E a cada dia crescia a impressão de que assim moraria eternamente. Morava com o Gato. Mas o Gato sabia morar de um jeito que era como morar absolutamente sozinha muitas vezes. Não é de todo ruim, amava sua casa. Não que parecesse, pois pouco a frequentava, mas sim, amava. Tinha obrigações para com ela que não conseguia cumprir, mas a casa nunca reclamara. Da mesma forma o Gato. Amor incondicional. Sozinha, tinha tempo suficiente para olhar ao seu redor e tentar entender o que era sua vida. O que acontecia e qual era sua responsabilidade nisso, s...

Bilingual

It was morning. I had cried the whole night. Conclusions came to my head like butterflies, but they were all inconclusive. Things I've never thought about, things that have shadowed my mind my whole life. I just didn't want to see them. Nor hear. Certo, eu quis te fazer especial, mas você quis ser apenas mais um. Te tornarei então mais um entre tantos. Um entre tantos que eu quis pra mim, um entre tantos que eu desejei. Um entre tantos que eu daria um dente de trás para ter. It's a strange, nice, weird feeling. It was like I had faced all the answers altoghether, and yet, unanswered it remains. Like dropping a heavy burdon, like drinking a heavy bourbon. Happiness, although mislead through dangerous pathways. É como insistir em drogas de efeitos breves e efêmeros. É como um vício que te incita ao primeiro trago, mas logo apaga-se na metade. E sempre é um primeiro trago, porque não vinga. Não perde a novidade porque não tem efeito cumulativo. I'll pretend to both of ...