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Tète-a-tète.

Atente-se para o Tudo que há tamanho tempo percorre a Terra. É tanto o que traz atrás de si, que a tentação de terminar é intermitente, mas finda por encerrar-se no peito tamborilante da mãe telúrica. Tarda o Ocidente a luzir, e os Trópicos trespassam translúcidos o diâmetro terrestre. Todavia, o Tudo se alastra, aterrorizando uns, tranquilizando outros, enternecendo terceiros. Atabalhoado, quem observa, tranforma-se, uno com o Tudo, contudo, ainda um. Tempera-se, assim, o Tudo com os traços de quem nele transforma-se, fazendo o somatório do todo, que Mãe Terra sustenta e alimenta. Tenho para mim, que tudo o que toco é Tudo, o tangível tergiversando no todo de que faz parte, e trago em mim a totalidade transcendente no imanente da minha tenra imagem.

Arretância.

Adorava a história de que nascera 15 dias antes do previsto. Quando soube a primeira vez, foi como se toda sua vida se tivesse explicado por aquele simples fato. Divertia-se ao contar e recontar isso a quem quisesse ouvir; empombava-se de orgulho para dizer que nascera naquele dia, o seu dia, não definido por ninguém, por médicos, calendários, agendas, feriados: no dia em que ela própria escolhera nascer. Agradava-a também a idéia de que tinha pressa em ir ver o mundo, a verdadeira contestação da psicanálise: sim, era muito bom estar no conforto e segurança do útero materno, mas chega!, queria correr os riscos da vida lá fora, sozinha, por si mesma. Nada de colinho da mamãe; ela queria correr riscos. Logo descobriria que essa fora a primeira de muitas escolhas que haveria de fazer na vida. Aliás, tudo seria escolha, todo o tempo, e ela não recuaria diante das opções. Nascer antes do previsto significava para ela o prenúncio de sua personalidade a se desenvolver. Nunca foi de ficar em c...

Incompletude

Há muito não escrevo. Há muito não escrevo algo que seja realmente aquilo que escrevo, o que quero escrever, que saia de mim mesma. Há muito não escrevo e é como se silenciasse, um período de silêncio existencial. Não porque não escrevo. Não preciso escrever pra existir. Mas porque não escrever é sinônimo de algo. Não escrever sobre a existência é sinal ou sintoma de que há um algo na existência que está diferente, que está, talvez, imóvel, ou desconectado, ou inerte. É como se a vida fosse passando me atropelando. Me atropelando sempre está. Não é isso. É como se deixasse de pensar no que me acontece, deixasse de sentir. Uma vida não sentida. Só posso escrever do sofrimento de existir. Já dissera aqui outrora que a calmaria existencial é veneno para minha criatividade. Mas a descoberta é que esse sofrimento de existir não significa problemas, doenças, perdas, acontecimentos ruins na vida, não significa apenas isso. Sofrimento de existir é sentir-se na existência, sentir que as coisas ...

Minha vida na poesia - 1

"(...)Leve o diabo a vida e a gente a tê-la Nem leio o livro à minha cabeceira. Enjoa-me o Oriente. É uma esteira Que a gente enrola e deixa de ser bela. Caio no ópio por força. Lá querer Que eu leve a limpo uma vida destas Não se pode exigir. Almas honestas Com horas pra dormir e pra comer, Que uma raio as parta! E isto afinal é inveja. Porque estes nervos são a minha morte. Não haver um navio que me transporte Para onde eu nada queira que não o veja! Ora! Eu cansava-me do mesmo modo. Qu'ria outro ópio mais forte para ir de ali Para sonhos que dessem cabo de mim E pregassem comigo nalgum lodo. Febre! Se isto que tenho não é febre, Não sei como é que se tem febre e sente. O fato essencial é que estou doente. Está corrida, amigos, esta lebre. Veio a noite. Tocou já a primeira Corneta, para vestir para o jantar. Vida social por cima! Isso! E marchar Até que a gente saia p'la coleira! Porque isso acaba mal e há de haver (Olá!) sangue e um revólver lá pro fim Deste desassosseg...

Minha vida no teatro.

Abre-se pesada cortina vermelha. Palco intimista, luzes azuladas. Uma mesa de madeira ao centro, deitada de costas sobre ela, com papéis e um lap top, fumo um cigarro. Entra um homem, seu rosto sempre na sombra. Retira-me da situação em que estou e interage comigo até não poder mais, até que, para cima dele, eu tome toda a cena, e ele desapareça de vez na escuridão da cochia. Luz alaranjanda, apenas um foco na boca de cena. Arrasto-me até ele. Diálogo interminável comigo mesma. Monólogo. Expressão corporal intensa que acompanha os 32 sentimentos diferentes que expresso no texto. Audio ao fundo, sinfonia, bem baixinho. Monólogo; sinfonia crescendo. Monólogo; sinfonia aumentando de volume. Monólogo fading out, sinfonia cada vez mais alta, não se escuta mais o que digo. Estirada ao centro do palco, luzes de fundo, 5 atores/atrizes entram em cena arrastando-se no chão como baratas, vêm por todos os lados ao meu encontro, até parecermos uma massa disforme que movimenta-se em uníssono ao rés...

Minha vida no cinema.

Câmera em primeira pessoa, é o olhar da personagem. Pra onde ela olha, enquadra-se a imagem em tons ora acinzentados, ora fúscia ou grená, ora em technicolor. Violino ao fundo. Violoncelo. Diálogos perdidos dos passantes, confusos, fragmentários. Cenas em movimento. Poderia estar dentro de um ônibus, a camêra sacolejaria olhando pela janela um dia chuvoso. Nada mais feliz que um dia chuvoso e frio. Rabecas mais rápidas. Luzes da cidade à noite. Flashes de mãos que seguram copos, que abraçam cinturas, que mexem nos cabelos. Fumaça de cigarro. Piano. Diálogo entre partes de dois corpos enudescendo-se. Ombro. Pescoço. Costas. Cabelos. Um olho bem aberto, que se fecha e aperta-se. Manhã chuvosa. Um clássico orquestrado. Olhar fixo num transeunte qualquer, acompanhando sua passagem pela rua. Um pé atrás do outro, All Star surrado. Cenas em fast foward, passagem do dia para o entardecer. Um chorinho em cochabamba. Mesa de bar. Par de pernas sob uma saia rodada que se cruzam sugerindo um joel...