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Reprospectiva

É o último do ano. O que quer que seja, mas é o último. Após as 23h59 de hoje, nada mais poderá ser realizado, feito, pensado, comido, gasto, gozado, ignorado em 2009. É o último do ano e a sensação que paira é a de tanto esforço para nada. Nadar, nadar e morrer na praia. Dar murro em ponta de faca. Todo o esforço - emocional, físico, financeiro - dispendido para promover (provocar?) as mudanças feitas em 2009, todo pelo ralo, enxaguado pela sensação de que se está exatamente no lugar de onde se saiu. A famosa "virada de 360°", como alguns intelectualmente abastados (abestados?) insistem em dizer. Tudo mudou e ainda assim nada aconteceu. Nada é como era e ainda assim, tudo está igual. Insuportavelmente igual. Isso pode ser devido à brilhante idéia da nossa percepção de construir a ciclicidade das coisas. A tal da roda, deve ter sido provavelmente o maior eureca da humanidade. Vemos círculos por todos os lados. Dizem, uns, circunvolutivamente, e eu até gosto disso. Mas me pu...

Metades

Não mais aceitar metades. Ou copo cheio, ou copo vazio. Existem montes de textos sobre isso, e tenho-os visto muito recentemente em posts, blogs, scraps, links e toda essa mequetrefa cybernáutica de meus amigos e amigas. Nunca dei muita bola, porque sempre cheirei esses assuntos com cara de autoajuda. Nunca dou muita bola para textos de autoajuda. Por outro lado, existe o conceito junguiano que sempre me caiu muito bem de sincronicidade. Se tantos textos sobre este assunto me aparecem à frente, motivo deve haver. Meu inconsciente chama essa temática à frente de meus olhos, como quem diz: ACORDA! Foi essa a conclusão a que cheguei esta madrugada, porque as conclusões são filhas indissociáveis das madrugadas. Em algum lugar da Bíblia, diz-se: "Venha quente ou venha frio, se vier morno te devoro!", ou algo do gênero. E é curioso olhar para trás  - e esse 'trás' começa no segundo passado da letra 'a' - e re-conhecer que foi sempre assim que vivera. Nunca me en...

Contículos

1 - Expresso da madrugada. Laranjeiras, ponto de ônibus, 1h30 de sexta-feira. Táxis e mais táxis sobem e descem, mas estamos esperando um ônibus. Estamos quem? Eu. E antes de mim um casal. E depois um cara. E um outro cara. Todos parecem se conhecer, menos eu, não conheço nehnum deles. Pegamos todos o mesmo ônibus, chegado depois de longos 20 minutos. O que acontece é que esta é uma hora especial para os ônibus: é a hora em que todos os funcionários de todas as categorias de todos os bares e restaurantes da redondeza, que fecharam há meia hora, hora e meia, estão indo para suas respectivas casas. Eu tb estou indo pra casa, mas não trabalho (não mais) em restaurante, não conheço ninguém. Ao contrário deles. Todos se conhecem, ou ao menos agem como se. Conhecem o motorista e o cobrador, e o motorista e o cobrador conhecem a todos eles e elas também. De General Glicério ao INES o ônibus lota. E lota no Largo do Machado também. E lota no Catete. Eles vão em direção à Penha. Riem, conve...

Tudo sobre assalto.

Tudo o que você sempre quis saber sobre assalto, mas os ladrões nunca tiveram tempo de te responder. Madrugada de sexta 20 para sábado 21/11/2009. Lapa, Rio de Janeiro, Brasil. Nada melhor para a fome das 3 da manhã do que as barraquinhas da Lapa. Tem cachorro-quente, salsicha ou linguiça, com ou sem pleto. Tem hamburguer, x-burguer, x-tudo, x-bacon, x-egg-bacon-salada-tudo-burguer, tem milho, tem salsichão, tem queijo coalho. E tem pizza. Quero uma dessa aqui, meu amigo também. E um guaravita. Prontas, agora vamos sentar ali nos degraus do gramadinho. Muito boa, que pizza gostosa a essa hora! Mas e esse rapaz que passa frente a nós, perto demais? Tem nada não, é apenas mais um ser humano existindo por aqui. Exceto pelo: "Calminha aí, vou levar só o celular!" "NÃO!", e me curvo protegendo meu colo da mão insidiosa. O que ele não contara, na frase anterior é que ele era cinco. Ou seis. Me debato, mas a mão continua investindo contra meu estômago, derruba minha p...

De que.

De que adianta uma escada se não subo. De que adianta uma televisão se não assisto. De que adiantam lençóis se não me cubro. De que adianta silêncio se não ouço. De que adiantam livros e quadros se não enxergo. De que adianta a voz se não falo. De que adianta o colo se não páro. De que adianta o vento se não resfrio. De que adianta www se não conecto. De que adianta o plug se eu não tomada. De que adianta o vinho se não bebo. De que adianta mesa se não almoço. De que adianta dinheiro se não gasto. De que adianta companhia se não conto. De que adiantam claves se não toco. De que adianta outlook se eu não express. De que adianta editar se eu não publico. De que adianta a foto se não reconheço. De que adianta a receita se não cozinho. De que adianta espera se não amo. De qua adiantam mãos se não encosto. De que adianta a boneca se não brinco. De que adianta subir se não olho pra baixo. De que adiantam dedos se não aponto. De que adiantam teclas se não escrevo. De que adianta tela se não...

Suspensão.

Eu queria que algo acontecesse. Que algo aparecesse. Que algo me surpreendesse. Que algo se impusesse. Que algo surgisse. Que algo me arrastasse. Que algo é esse? Suspensão. Como na química, quando uma substância está em suspensão, em álcool a tantos por cento, está imersa naquilo, em suspensão; suspende-se a substância que ela é para poder tornar-se a substância em potencial que virá a ser. Mas não o sabe. Ela não sabe que substância tornar-se-á. Estou em suspensão. Porque não sei o vir-a-ser. O devir. Que devenha. O exercício de as coisas não estarem sob controle. Não que estejam descontroladas. Mas que estão não sob o seu controle. Estão sob controle outro que não se controla daqui, sabe-se deus de onde então. E que difícil! O exercício de aguardar, já que não é daqui que se controla o tempo, o algo que não chega nunca o dia em que me arrebate, meu deus! Pra quem anda rápido demais, esperar colher maduro pode ser muito penoso. Mas se torna necessário, depois de tantas frutas verdos...

Tète-a-tète.

Atente-se para o Tudo que há tamanho tempo percorre a Terra. É tanto o que traz atrás de si, que a tentação de terminar é intermitente, mas finda por encerrar-se no peito tamborilante da mãe telúrica. Tarda o Ocidente a luzir, e os Trópicos trespassam translúcidos o diâmetro terrestre. Todavia, o Tudo se alastra, aterrorizando uns, tranquilizando outros, enternecendo terceiros. Atabalhoado, quem observa, tranforma-se, uno com o Tudo, contudo, ainda um. Tempera-se, assim, o Tudo com os traços de quem nele transforma-se, fazendo o somatório do todo, que Mãe Terra sustenta e alimenta. Tenho para mim, que tudo o que toco é Tudo, o tangível tergiversando no todo de que faz parte, e trago em mim a totalidade transcendente no imanente da minha tenra imagem.