Pular para o conteúdo principal

Diálogos 3: O que você foi fazer?

- Mas doutor, não gostei!
- Como assim?
- Do que o senhor fez!
- Mas você está curada!
- Exatamente!
- Não gostou de estar curada?
- Não. Quero a recidiva da minha patologia!
- Não entendo!
- Com todos os sintomas de volta!
- Mas porque? Não se sente melhor assim?
- Defina "melhor"?
- Ora, foram-se as dores, a febre, a tensão muscular. Seus olhos não lacrimejam mais, sua garganta desobstruiu, está respirando melhor! Aquela sensação de aperto no peito e nó no estômago também passou e seu coração não corre mais risco de enfarte. Não tens mais dor de cabeça. Os pés não estão inchados e suas pernas se movimentam livremente agora. Sua saúde está restaurada, minha jovem!
- Mas e o buraco?
- Que buraco?
- O buraco que fica agora! O que eu faço sem sentir isso tudo? Não sinto mais meus pés, minha cabeça, meu estômago, meu coração, não sinto mais nada! Como sei que ainda os tenho se não os sinto?
- Mas eu te garanto, estão aí e funcionando plenamente.
- Sua garantia não me basta. Eu não doo mais, não sei se existo.
- Minha filha, é confuso o que está dizendo. Em muitos anos de prática médica nunca ouvi dizerem...
- Pois é doutor, o senhor não sabe o que faz. Devia ter me perguntado antes.
- Perguntado o que?
- Me explicado! Com certeza, se soubesse que me curar seria assim, não deixaria que tivesse me tratado.
- Mas achei que era isso o que você queria.
- Vocês médicos e suas suposições. Achou mal. Eu tinha o direito de saber que seu tratamento iria me roubar o sentido de ser.
- O sentido de ser? De ser doente?
- Não. Sentir. Eu sentia antes. Agora não sinto mais nada.
- Sentia dores.
- Mas sentia. E agora, o que me resta?
- Saúde.
- Para que?
- Para aproveitar a vida!
- Como vou aproveitar uma vida que não sinto? Veja, nem sei ao menos se tenho um cérebro, não o sinto dentro de minha cabeça! Como posso raciocinar assim?
- Minha jovem, acho que você está muito confusa. Logo se acostuma. É assim que se é saudável, é o que todos buscam.
- Anestesiados? Não, obrigada. Não quero ser saudável se isso significa não me sentir. Quero de volta saber do meu corpo, onde dói!
- Não posso te fazer doente de volta!
- Como não? O senhor curou, agora trate de descurar!
- É contra meus princípios, o juramento que fiz!
- Não me importa! Eu não pedi isso! Quando o procurei, achei que podia me ajudar. Não piorar as coisas.
- Não sei o que fazer agora. Na verdade, nem ao menos entendo direito o que você quer...
- Quero o sentir, o sentido, o sentimento. Que me devolva tudo isso.
- Não sei se posso. Eu havia te curado...
- Faça-o agora!
- Se te beijar...
- Talvez resolva...
- Mas adoecerei também... eu acho...
- Não me importa. Beije-me!
(...)
- Sinto as dores retornarem lentamente. Os sintomas se aproximando. Com o passar dos dias piorarei.
- Era isto que você queria?
- Era, era sim.
- Mais alguma coisa?
- Que você me ligue amanhã.
- Que eu te procure?
- Sim, isto.
- Amanhã ligarei... amanhã.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Shiva, Vishnu e Brahma, Nietzsche, Heidegger e Sartre.

A existência é perfeita. Nem mais nem menos. Não se deve questionar o que se lhe acontece, porque é a perfeição. A existência é perfeita e você está exatamente onde deveria estar nesse momento. O que lhe acontece é exatamente da forma como deveria. Todos os milhares de seres que atravessam seu caminho ao longo do dia, deveriam estar precisamente ali naquele momento, não antes, não depois, não em outro caminho, mas no seu, naquele instante único. A unicidade é a precisão da existência. Porque só existe isso agora. E o que existe é minuciosamente programado para vir a ser, nesse único instante do existir. O existir não é linear. É apenas um ponto,o ponto do instante. Não existe antes nem depois, apenas isso, o instante que há, é onde eu existo. Eu não fui nem serei. Tampouco sou. Eu estou sendo. O momento do devir. E eu devenho a cada instante que é um só. O que há é apenas o agora. O que foi e o que será não têm consistência. É vago, etéreo, onírico. O único real é o do momento presen...

Tudo o que tenho por um pouco de paz de espírito, John!

Eu queria apenas ser, sem sabê-lo. Sem saber o como, quando e o porque de ser como quando e porque. Ser sem ciência, no máximo, uma leve intuição de por onde ir. Eu queria dizer, sem pensá-lo. Sem saber o porque do que digo nem adivinhar o porque da resposta que recebo. A inconsciência da ignorância do substrato de tudo. A consciência de si não é a ciência do subjacente. Posso saber de mim mesma, sem entender-me, nem a ti. Sei que sou, e basta. Não me interessa o que move meus passos, interessa que ando. Queria andar sem me notar, e, caso batesse numa parede, a culpa seria dela por estar ali, e não minha. O que sei de mim, é minha responsabilidade. Gostaria de lavar as minhas mãos. E que o resultado das coisas fosse apenas uma prerrogativa do suprapessoal, sem vínculo algum com minhas escolhas. E que as palavras fluíssem de meus dedos incessantemente. Penso, logo sou e sofro. Sofro a reflexão de mim mesma sobre o que sou. Se flutuasse na plenitude paradisíaca do não saber, o mundo ...

Eu prefiro a madrugada.

Eu prefiro a madrugada. O silêncio. O distanciamento. Eu prefiro a madrugada, quando a maior parte não está aqui. Quando o tempo parece congelar. Quando só eu existo. Eu prefiro a madrugada, quando os pensamentos soam mais alto. Eu prefiro a madrugada, quando eu brilho no escuro. Eu prefiro a madrugada, onde todos os gatos são pardos. Onde eu posso me ouvir melhor. Eu prefiro a madrugada, porque não se precisa mentir nem inventar. Prefiro a madrugada porque é mais sincera. Prefiro as madrugadas insones, onde se sonha mais alto. Prefiro as madrugadas sóbrias, quando se vê mais ao longe. Eu prefiro a madrugada. Que é mais lenta. Que não nos atropela. Eu prefiro as madrugadas e seus ritmos sem pressa. O ritmo do agora. Prefiro lembrar o que me disse numa madrugada. Prefiro as madrugadas solitárias. E eu prefiro a madrugada com você aqui.